Enriquecimento dos pobres beneficia a todos, incluindo os ricos, aumentando o nível de bem-estar geral

Recentemente, vários indicadores têm buscado melhor medir a riqueza das nações como alternativa ao PIB. No entanto, tem se negligenciado um fator mais subjetivo, porém fundamental, na geração da riqueza e prosperidade, que é a felicidade e o bem- estar, objetivo maior de todos os humanos, como já apontava Aristóteles há mais de 2.300 anos. Se é a felicidade o que almeja a sociedade, uma nação próspera é aquela que melhor atende a estes anseios de seus cidadãos.

Para termos a felicidade coletiva, precisamos de um ambiente com confiança na sociedade e nas instituições públicas, entendendo a felicidade como uma causa do crescimento econômico, e não seu resultado, como muitas vezes é compreendido. A descrença e a desilusão não favorecem a produtividade. A ausência da confiança gera uma ansiedade crescente, um sentimento de insegurança, aumento de violência e distúrbios mentais, com todos os custos econômicos associados. Um nível mais elevado de satisfação faz com que as faltas ao trabalho sejam menores e melhore a produtividade e o desempenho, além da redução de custos com saúde. Solidariedade e respeito ao bem comum e ao patrimônio público aumentam, gerando uma maior riqueza material para a comunidade em questão. Um grau mais alto de confiança na sociedade em que se vive reduz os “custos de transação” desta sociedade, que passa a ter menores gastos com fiscalização, burocracia, corrupção, itígios, contratos e regulações. Tanto é assim que neste ano foi incluído no Fórum Econômico Mundial de Davos os impactos econômicos de questões relacionadas à ansiedade e à solidão.

O psicólogo americano Tim Kasser enfatizou o custo elevado dos valores materialistas. Seus estudos demonstraram que indivíduos que concentram sua existência na riqueza e outros valores materiais são menos satisfeitos com suas vidas. Centrados em si mesmos, preferem a competição à cooperação, contribuem menos com o interesse geral e se preocupam pouco com questões ecológicas e com o longo prazo. Um outro estudo conduzido pelo epidemologista inglês Richard Wilkinson e pela americana Kate Pickett, ao longo de 50 anos, concluiu que um nível maior de igualdade gera sociedades mais saudáveis, onde reinam harmonia e uma prosperidade maior. Eles mostram que o enriquecimento dos pobres beneficia a todos, incluindo os ricos, aumentando o nível de bem-estar geral.

Interessante notar o ciclo vicioso que se cria, já que o aumento do nível de confiança leva ao aumento da felicidade, que, por sua vez, eleva o altruísmo e a cooperação, produzindo dessa forma uma espiral progressiva de prosperidade. As motivações altruístas favorecem a cooperação. Quanto mais as pessoas cooperam, mais a prosperidade aumenta. Assim, a política econômica e de desenvolvimento de uma nação não deve excluir a promoção do altruísmo. Uma prova disso é a economia digital, que requer uma cultura de compartilhamento e colaboração. A expansão da transformação digital baseia-se em valores de abertura, livre acesso à informação e de criação conjunta de valor. Seu sucesso deve-se à participação de vários colaboradores.

São inúmeras as teorias e comprovações filosóficas ou científicas da relevância da felicidade para a prosperidade das nações, da importância maior do crescimento qualitativo das condições de vida do que o crescimento quantitativo do consumo. Não é por outra razão que vemos o aumento do interesse no tema da felicidade por parte de cientistas de diferentes áreas do conhecimento. Falta, entretanto, despertar o interesse nos políticos.

Suzana Kahn é presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudança Climática e coordenadora do Fundo Verde da UFRJ